Capoeira e a Miséria como Campo do Negocio

Por: Jean Pangolin

A atualidade tem nos apresentado um crescimento desenfreado de trabalhos sociais em comunidades de risco social e pessoal na periferia de grandes centros urbanos, reforçando a idéia dos inúmeros benefícios educativos da capoeira para crianças, jovens e adultos destas áreas. Assim, pretendemos neste texto refletir sobre algumas das inúmeras contradições que circundam esta prática a partir de sua pedagogia e relações com o poder público e privado.

  1. História e terceiro setor

Um olhar mais cuidadoso da história recente poderá certamente revelar as diversas relações entre a proliferação das ONGs e afins (Terceiro setor) e as modificações cíclicas do modo de produção. Neste sentido, trataremos especificamente da transição do Fordismo/Taylorismo para Neoliberalismo, caracterizando uma espécie de enxugamento dos gastos do estado a partir de privatizações e transferência de responsabilidades sociais para a sociedade civil, via efetivação do terceiro setor no papel antes desempenhado e de responsabilidade constitucional do estado. Assim, foi possível perceber no Brasil, por volta da década de oitenta e noventa uma série de medidas estatais de orientação neoliberal, e não por acaso, justamente neste período temos uma proliferação de diversas ações sociais dos grupos de capoeira nas peri ferias e uma série de editais públicos voltados para instituições do terceiro setor, criando uma espécie de corrida do ouro para os grupos de capoeira que viviam em busca de sua estruturação e autonomia financeira.

Toda esta nova demanda e possibilidades para os capoeiras, apresentavam-se como uma luz no final do túnel da sobrevivência institucional em uma nação que pouco valorizava sua cultura e possuía historicamente uma repulsa as práticas de herança afro-brasileira, contudo, este novo caminho também representava a necessidade de uma formação administrativa que os grupos de capoeira ainda não possuíam, bem como uma adaptação/cooptação, ainda que relativa, dos princípios antes defendidos pelos antigos mestres desta arte, considerando uma formação humana prioritária em detrimento do capital, ou seja, ter um jovem ou criança matriculado em um projeto social de capoeira, já não representava prioritariamente uma educação capoeiristica, mas sim um número a mais nos relatórios de prestação de contas das agencias de financiamento publico e/ou status simbólico quantitativo de m embros.

Este aspecto citado acima também nos ajuda a entender o processo de transformação pedagógica na capoeira dos projetos sócias, considerando o desvio de foco do educando e sua formação humana, para uma capoeira tecnicista, performática e mercadorizada, modificando processos pedagógicos reconhecedores da diversidade em detrimento de uma pasteurização uniforme do individuo sobre égide falsa da necessidade de identidade de cada grupo.

Os grupos passaram a transformar os educandos de projetos sociais em ``soldados`` dos diversos projetos ideológicos defendidos por seus respectivos mestres, que ampliavam o poder de agressividade dos envolvidos na dura realidade das periferias, transformando-os em braço de luta da disputa de mercado no negocio da capoeira, principalmente pela fragilidade intelectual e moral no bolsão de miséria que os envolvia.

 

  1. A pedagogia na/da miséria

 

Como na hierarquia militar, os grupos passaram a criar categorias de membros, subdividindo seus integrantes entre aqueles que seriam os executores técnicos não pensantes, os não tão bons tecnicamente pensantes e aqueles sem o menos talento técnico e interesse pela continuidade na capoeira, que só serviriam para pagar a mensalidade e financiar as ações do grupo. Obviamente que esta categorização citada representa uma alegoria grosseira do quadro hierárquico de cada trabalho de capoeira sob a influencia negativa do jogo com o capital, não cabendo aqui interpretações ao pé da letra da realidade.

Para esta estrutura citada acima, cabia aos projetos sociais a função formativa em larga escala daqueles que por uma vivencia com mais oportunidades motoras, pela vida na periferia com vielas, cercas, muros e outros desafios corporais, seriam privilegiados por habilidades compatíveis ao desenvolvimento técnico na capoeira. É importante lembrar que também pela ausência na realidade destes indivíduos de uma escolarização adequada, condições de moradia e alimentação, os mesmos seriam facilmente conduzidos pelas ordens do mestre, que canalizava as habilidades técnicas e revolta social de crianças e jovens para o enfrentamento contra outros grupos na concorrência de mercado.

A garantia desta pedagogia não pensante estava diretamente condicionada a um método de ensino que privilegiasse palavras de comando, gritos de ordem e uma pratica extremamente tecnicista e padronizada, pois assim o processo de controle estaria garantido, bem como a dificuldade para um desenvolvimento mais critico que pudesse questionar toda estrutura de alienação formativa. Desta forma, estes trabalhos sociais que poderiam representar uma alternativa de liberdade na lógica freireana, estruturavam-se cada vez mais como castradores da autonomia, da critica e da criatividade, e tudo isso encoberto sob o manto da solidariedade humana.

 

  1. Sobrevivência e formação profissional

Com o passar dos anos o feitiço virou contra o feiticeiro e um grande problema surgiu, relacionando a enorme quantidade de pessoas envolvidas nos projetos e os poucos recursos disponibilizados para manutenção e sustento destes indivíduos, que por sua formação deficiente, foram adestrados para receberem ordens e acostumados com uma política assistencialista de doação de calças, camisas, mensalidades, cursos e afins, que já não cabiam no orçamento institucional. Assim, por apresentarem uma atitude viciada, por conta da formação, estes não conseguiam gerar recursos via trabalhos com capoeira, pois não possuíam a qualificação exigida pelo mundo do trabalho e, em sua grande maioria, também não conseguiam o apoio necessário institucional ou de seus mestres, pois eram encarados como possíveis concorrentes na guerra de mercado, consider ando suas habilidades técnicas, antes tão valorizadas pelos que hora a temiam. Assim, estes novos professores eram absorvidos pelos próprios projetos sociais.

Outro fator importante é que sendo os formadores dos projetos sociais geralmente oriundos dos próprios projetos, estes transformavam em uma bola de neve todos os conflitos já citados, pois eram reproduzidos sem nenhuma reflexão mais critica, ou seja, os jovens e crianças das periferias estavam condenados exponencialmente aos absurdos, frustrações e equívocos dos professores emergentes, transformando estes trabalhos em plataforma de ascensão hierárquica na carreira de capoeira, inseridos no jogo de auto-afirmação e disputa de poder dos futuros déspotas/mestres.

Em nossa percepção, os inúmeros projetos sociais inseridos na lógica citada acima, acirraram o processo de exploração do homem pelo homem, pois ajudaram a colocar no mundo da capoeira uma série de profissionais desqualificados que foram e estão sendo usados pelo deus mercado sem se dar conta criticamente deste processo.

 

Considerações finais provisórias

Queremos destacar neste texto, que nossa intenção não foi homogeneizar todos trabalhos sociais, nem tão pouco desqualificar a relevância destes nas periferias dos grandes centros, considerando o papel importantíssimo desempenhado pelos grupos de capoeira em locais abandonados pelo estado brasileiro. Assim, acima de tudo, queremos propor uma reflexão sobre os temas complexos que circundam a formação nos projetos sociais, ressaltando a importância de pensarmos sobre os nexos com o capital e toda conjuntura da capoeiragem.

Por fim, destacamos que nossa escrita parte de constatações do real, principalmente a partir também de nossa experiência junto ao projeto social Camaradinhas, criado em Salvador - Bahia no inicio da década de noventa, e de todas as suas transformações na luta pela sobrevivência na sociedade do espetáculo, em tempos de comando de uma esquerda falseada por princípios neoliberais e um forte academicismo burocrático improdutivo de leitura da comunidade de capoeira.

 

Adeus, adeus...

Boa viagem...



"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Nemo Nox


Jean Adriano Barrosa da Silva
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