Um espectro ronda a capoeira! O fantasma da institucionalização anda à solta, evocado pelos cartolas burocratas, praticantes da “capoeira de gabinete” (estilo em que o berimbau é o cifrão e os golpes são dados em cima da comunidade). O mais novo capítulo desta novela foi a audiência pública sobre “A capoeira no Brasil”, convocada pelo deputado federal Márcio Marinho no derradeiro 25 de agosto, na câmara dos deputados, em Brasília.

A simples convocação desta audiência, com um tema tão genérico, provocou alvoroço entre os capoeiristas. A começar pelo campo de articulação destes debates. O deputado Márcio Marinho, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, criou em 2010 a Frente Parlamentar em Defesa da Capoeira no Câmara dos Deputados, e em 2013, o vereador Luiz Carlos teve a mesma iniciativa na câmara dos vereadores em Salvador. Além de serem do mesmo partido político, PRB, ambos pertencem ao mesmo partido religioso, dono de um império de empresas de comunicação e um dos campeões em denúncias de intolerância religiosa contra a comunidade das religiões de matriz africana. Já que nenhum dos parlamentares tinha ligação com a prática nem com a comunidade da capoeira, como deveríamos encarar este interesse repentino? Simpatia pessoal ou um ambicioso plano de apropriação da cultura negra pela maior igreja evangélica do país? Deixemos esta questão de lado para nos concentrarmos na audiência pública.

Convocada na surdina, a audiência chegou ao conhecimento da maioria da comunidade da capoeira por um destes ricos acasos do destino, e não contou com nenhuma divulgação visível. A primeira composição da mesa era composta majoritariamente de federações e confederações, com a presença do Ministério dos Esportes e ausência absoluta doMinistério da Cultura. Declarações anteriores do deputado, em que confessava a intenção de levar a capoeira às olimpíadas, pareciam se somar às articulações escusas do Conselho Nacional do Esporte, onde se discute a transformação da capoeira em esporte sob a supervisão do sistema CREF/CONFEF e sem nenhuma ciência ou anuência por parte dos capoeiristas.

A partir de articulações, pressões e denúncias da Rede Nacional de Ação pela Capoeira e da Federação de Capoeira da Bahia, este quadro se equilibrou e outros setores se fizeram pesentes na mesa. Compuseram a mesa: o deputado federal Márcio Marinho, presidente da Comissão de Esportes da Câmara; Andrea Nascimento Ewerton, do Ministério dos Esportes; Luiz Carlos, da Frente Parlamentar em Defesa da Capoeira na Câmara dos Vereadores de Salvador; Sandro Santos, da Fundação Cultural Palmares; Paulo Magalhães (Treinel Sem Terra), da ABCA – Associação Brasileira de Capoeira Angola; Gersonilton Souza, da CBC - Confederação Brasileira de Capoeira; Emerson do Nascimento (Mestre Veinho), da ABPC – Associação Brasileira dos Professores de Capoeira; Sérgio Vieira, da FICA – Federação Internacional de Capoeira; e Ricardo Carvalho (Mestre Balão), pela FECABA - Federação de Capoeira da Bahia. O finado CNUC, movimento oportunista que pretendia empossar burocratas como os novos donos da capoeira no Brasil, não teve coragem de se fazer presente, e não mandou representante nem justificativas.

A audiência pública demonstrou a polarização acirrada que se intensifica na capoeira hoje. De um lado, os burocratas que, sem praticar capoeira, querem institucionalizá-la e estabelecer controle sobre todos os capoeiristas do Brasil, cobrando uma taxa de cada profissional e montando nas costas desta aguerrida categoria de trabalhadores da cultura. Do outro, os verdadeiros capoeiristas,preocupados com a transmissão tradicional das múltiplas facetas deste legado cultural afro-brasileiro.

Capitães do Mato

Como o finado JJ e seus asseclas não se fizeram presentes, a liderança maior dos capitães do mato passou a ser, sem dúvida, o nefasto Sérgio Vieira, que ostentava seus títulos acadêmicos, se apresentando como “professor pós-Phd”. Em sua apresentação, brandia sua tese de doutorado que ninguém leu, uma vez que não foi publicada nem se encontra disponível à comunidade da capoeira. Porque será? Apresentou-se como mestre de capoeira, recorrendo a uma suposta linhagem angoleira, embora, nos bastidores da capoeira, haja um prêmio prometido a quem apresentar uma foto do mesmo gingando ou dando um simples aú. Em sua fala, reconheceu a baixíssima representatividade das federações, estimada por ele mesmo em menosde 1% dos praticantes da arte-luta. Citou que em 35 países há federações nacionais, algumas das quais são membros dos comitês olímpicos locais. Vale a pena aqui abrir um parêntese para citar o caso de Portugal, em que os capoeiristas, independente de sua graduação na capoeira, têm que fazer um curso com a Federação Portuguesa, absorver o conteúdo que os portugueses acharem adequado e obter o título de Treinador de Desporto, para darem aula de capoeira em território português. Ao afirmar que trabalha pelo reconhecimento definitivo da capoeira no comitê olímpico nacional,confessou as consequências do seu plano sinistro: “A profissionalização dentro do sistema desportivo não é de mestre de capoeira, é de técnico desportivo de capoeira, é de treinador profissional de capoeira e de árbitro. É disso que estamos falando quando falamos de reconhecimento profissional dentro da instituição”. Aqui mais do que nunca transparece a grave ameaça representada por estas ações. O processo de esportivização da capoeira se constitui em um forte ataque ao ofício do mestre de capoeira, patrimônio imaterial brasileiro. Ou seja, uma ação contrária às próprias políticas públicas do governo federal, as ações de salvaguarda conduzidas pelo IPHAN, órgão do Ministério da Cultura. Nesse modelo, se abandonaria a figura tradicional do Mestre de Capoeira em prol de um treinador desportivo, um profissional de educação física com uma formação rasa e superficial no campo da cultura. O atleta não teria mais um mestre ou um grupo, lutaria para defender um time, uma marca. A fidelidade que um jogador de futebol tem ao seu time (que pode mudar a cada estação, dependendo de quem ofereça mais pelo seu passe) seria o parâmetro da relação do capoeirista com sua equipe, grupo ou treinador desportivo. Em âmbito internacional, as potenciais consequências são ainda mais danosas. Nos países em que a capoeira é regulamentada, as federações estrangeiras têm total controle sobre a prática, e os mestres, contramestres e professores brasileiros têm que se submeter a todas as suas exigências. Ou seja, um mestre de capoeira brasileiro tem que se submeter a fazer um curso com uma federação estrangeira, absorver os conteúdos por eles escolhidos e ser por eles avaliado, se quiser dar aula nestes lugares. Além do que, estes conteúdos estão, via de regra, relacionados apenas à capoeira como esporte de competição (perspectiva minoritária e pouco representativa no Brasil). Todo e qualquer mestre que pratique e ensine a capoeira sob outra perspectiva deve se submeter às imposições estrangeiras para trabalhar nestes países. Trata-se de um total entreguismo com a nossa cultura, jogando na sarjeta a autoridade dos nossos mestres tradicionais e elencando treinadores estrangeiros à condição de autoridade. Uma ação do mais absoluto peleguismo!

A fala de Gersonilto de Souza, presidente da CBC (que também se apresenta como mestre de capoeira) mostrou a concepção que rege estas instituições. “Vocês acham hoje que um formado em capoeira tem condições de adentrar uma escola e dar aula, sendo um docente da educação? Não, primeiro ele tem que fazer vários cursos, para estar lá dentro”. Ou seja, a Confederação Brasileira de Capoeira não reconhece o caráter educacional da capoeira, seus saberes ancestrais e sua capacidade de transformar a vida de pessoas. Trata-se de uma demonstração cabal de que a instituição que deveria lutar pela capoeira não entende nada de capoeira e ainda luta contra ela. A experiência de quem realmente vive a cultura e se alimenta dela mostra claramente o contrário. Nas periferias de todo o Brasil há capoeiristas com pouca instrução formal que fazem a diferença na vida de crianças e adolescentes de suas comunidades, transmitindo saberes e valores, dialo 28/09/15 10:50:00: Mestre brucutu: gando com as “crianças-problema” que os professores da escola não conseguem dialogar, mostrando alternativas de vida e desviando jovens do caminho das drogas e da criminalidade. Deslegitimar esses saberes e afirmar que para dar aula de capoeira em uma escola tem que passar pela universidade é agir como capitão do mato e inimigo da cultura.

Em defesa da cultura

A estes ataques, ergueram-se em grito os capoeiristas tradicionais, formados na vivência da cultura, os que “põem a mão no chão”. Não quero aqui detalhar as falas, para não alongar o texto em demasia, mas houve um comprometimento de vários guerreiros, boa parte dos quais pagaram passagens do próprio bolso para se fazerem presentes na audiência. Esta foi uma das primeiras ações públicas da recém-criada Rede Nacional de Ação Pela Capoeira, movimento que debate, articula e constrói ações em torno das políticas públicas em todo o Brasil. Pela Rede, se fizeram presentes o treinel Sem Terra (Paulo Magalhães) e os mestres Duda Carvalho (BA), Soldado (BA), Zé Doró (BA), Paulão Kikongo (RJ) e Brucutu (DF). A FECABA (Federação de Capoeira da Bahia) levou o mestres Balão, Kiby e Raimundo Carneiro. Os capoeiristas de Brasília e Goiás também se fizeram presentes, destacando-se os mestres Zulu, Tabosa, Squisito, Luiz Renato, Gilvan. Marujo e Chocolate, além de representantes de alguns dos grupos de capoeira angola presentes na capital brasileira, como Nzinga e Semente.

Os capoeiristas denunciaram as tentativas de institucionalização e controle da capoeira feitas a portas fechadas por burocratas sem ligação orgânica e vivencial com esta manifestação cultural, e reafirmaram a necessidade de que qualquer política pública voltada para o segmento passe por exaustivos debates com a comunidade da capoeira, representada em toda a sua diversidade. Apontaram ainda a necessidade de materializar as políticas de salvaguarda, até então apenas no plano do discurso, tendo em vista a valorização do tradiciona lofício do mestre de capoeira como um norte fundamental de políticas públicas formuladas por quaisquer órgãos ou instâncias.

A própria representante do Ministério dos Esportes, a Srª Andrea Ewerton, se contrapôs aos capitães do mato citando Paulo Freire e indagando: “quem disse que o saber popular é menor do que o saber acadêmico?”. Afirmou que o Ministério está trabalhando em torno de uma concepção ampliada de esporte e construindo um sistema “multidisciplinar, multiprofissional, multicultural”. Em nome do governo brasileiro, desmascarou as falácias dos capoeiristas de gabinete: “enquanto Ministério do Esporte quero dizer que não é verdadeiro a necessidade da institucionalização, ou organização, para ter acesso ao recurso público. O Ministério do Esporte está na contramão talvez das reflexões que vocês colocaram”.

O deputado Davidson Magalhães (PCdoB/BA) manifestou a intenção de reativar a Frente Parlamentar em Defesa da Capoeira, e fez uma fala importante, em sintonia com o discurso tradicional da capoeiragem: “não se trata de jogar a cultura contra o esporte nem o esporte contra a cultura. O problema é se reduzir o conceito e a dimensão histórica da capoeira. (...) Ela não pode ser enquadrada nos mecanismos corporativos que se quer fazer. (...) Isso é um atentado à cultura afro-brasileira!”. Apesar dos discurso avançado, alguns capoeiristas põem “um pé atrás” pelo fato do deputado pertencer ao mesmo partido de JJ (carinhosamente apelidado de CDM - capitão do mato). Este utilizou a página oficial do partido (vermelho) para destilar veneno e xingar os opositores do CNUC, mostrando um profundo desrespeito com os antigos mestres de capoeira que zelam pela liberdade de suas práticas e tradições.Esperamos que estes sejam posicionamentos isolados e que o partido em questão desvincule sua imagem da imagem deste elemento.

A roda continua

Apesar da capoeira se posicionar de forma firme pela sua autonomia e liberdade, os burocratas continuam em ação. O PL 31/09, de regulamentação da profissão de capoeirista, foi desarquivado e está sob a relatoria do senador Paulo Paim. Este já foi procurado por coletivos de mestres em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e outros locais, e neste mesmo dia, nos corredores do Congresso Nacional, nos manifestou a intenção de indicar seu arquivamento definitivo, conforme as manifestações da comunidade da capoeira. O PL 50/07 e o PL 2858/08, agora apensados um ao outro, seguem na mesma linha e constituem também graves ameaças ao ofício do mestre de capoeira, patrimônio imaterial brasileiro, e à comunidade da capoeira como um todo.

Durante o evento Diálogos Palmares, realizado em Brasília dois dias após a audiência pública, a presidente da Fundação Cultural Palmares, Cida Abreu, se posicionou contra as tentativas de institucionalização e regulamentação da capoeira, prometendo uma mudança de rumos da relação da Fundação com a capoeira. Vale lembrar que, em gestões anteriores, a Palmares, através de determinado assessor, colocou sua estrutura a serviço do finado CNUC, agindo contra os interesses da capoeira. Foi apontada ainda a realização de um evento nacional de capoeira, ainda no final deste ano, em Salvador, tendo em vista o aprofundamento do diálogo entre o poder público e os mestres e praticantes de capoeira, em suas mais diversas linhagens, estilos e manifestações.

A roda continua. Os inimigos, que querem, a partir dos seus gabinetes, virarem “donos da capoeira”, levaram ponteiras, martelos e cabeçadas, mas estão dando volta ao mundo para tentar dar uma rasteira na traição e virar o jogo. A comunidade da capoeira, mais do que nunca, tem que aproveitar as brechas de participação política abertas pelo Estado e dar o grito para fazer valer seus interesses coletivos. A Rede Nacional de Ação pela Capoeira está na luta por políticas públicas para nossa arte-luta, construídas de uma forma ampla, aberta e democrática, atendendo aos interesses da comunidade como um todo.

Iê é hora é hora!

Salve salve!

Axé!!!

Paulo Magalhães (Treinel Sem Terra / Tata Mutaokê) é jornalista e mestre em ciências sociais. Coordenador do Coletivo Ginga de Angola (UFBA), membro da Associação Brasileira de Capoeira Angola, do Fórum de Capoeira de Salvador, do GT de organização do Congresso de Capoeira da Bahia e da Rede Nacional de Ação pela Capoeira.